Vaqueiros do Raso da Catarina



O sol, já no ponto mais alto do céu, indica a hora mais quente do dia. A sensação de calor ultrapassa os 40 graus dentro da caatinga seca e cinza. Nesta extrema paisagem árida, homens encourados da cabeça aos pés, montados em cavalos, galopam rápido como raios. Ligeiros, passam levantando poeira, e chegam a desaparecer na névoa do sertão.

Em grupo, avançam destemidos em direção ao boi que corre solto na mata. Para capturar o animal, os vaqueiros ultrapassam estreitos corredores de mandacarus. Ignoram espinhos, cobras, escorpiões e lagartos, qualquer barreira no caminho. A perseguição pode durar horas e até dias, seguida do grito que mais se ouve durante as carreiras: Arre!

É a pega do boi, que se repete faz séculos no sertão nordestino. Em alguns lugares do Brasil, a prática de “caçar o boi” é apenas diversão. No Raso da Catarina, no Nordeste da Bahia, até pode ser motivo de festa em algumas épocas. Mas não na  maior parte do ano, nesta área remota do estado, entre os municípios de Jeremoabo, Paulo Afonso e Rodelas. Não é esporte, tampouco passatempo, é, sobretudo, sobrevivência.

Os vaqueiros mantêm a atividade, principalmente, como rotina de trabalho. Em uma das áreas mais secas do país, onde a média anual de chuva não chega a 350 milímetros, soltar o gado no mato é a forma de dar uma chance do animal sobreviver. Uma estratégia arriscada e perigosa para tentar prolongar a vida do rebanho. Por sorte, consumindo a vegetação natural, o animal até engorda durante a longa estiagem.

“O Raso é chão de léguas perdidas, compridas, rasgadas de jurema-preta, espetadas que nem espinho de cão. Xique-xique também alimenta bicho. Duvide não”, alerta o vaqueiro Raimundo Varjão.

Começo
Tudo começa tempos antes, quando o boi é marcado com a identificação do dono. Depois é solto no vale, entre os paredões dos cânions. Lá o animal passa vários meses, até anos, largado à própria sorte. Os rochedos altos acabam funcionando como uma espécie de cerca natural, que impede o gado de fugir para paragens ainda mais distantes.

Tempos depois, os vaqueiros vão resgatar o animal. Entram no Raso sem dia e hora certa para voltar para casa. Só retornam quando conseguem reunir um número considerado suficiente de animais.

 “Hoje tem um bocado de gado solto por aí. Cada vaqueiro que vem tem um. Pode ser cinco, dez, vinte, no meio deste rasão que só se acaba nos vales”, acrescenta Raimundo  Varjão.

“Você nasce vaqueiro, o destino só aperfeiçoa. Desde que nasce o menino é vaqueiro véio. Com cinco anos prende vaca, bezerro, monta cavalo, joga a corda, encara o bicho. A bem dizê, peleja com tudo isso sem andar até”, completa o vaqueiro.

Caçando imagens
A cena faz parte de uma saga real e crua, registrada pelo fotógrafo baiano Rui Rezende. Nos últimos quatro anos, Rezende visitou o Raso da Catarina dezenas de vezes. Como um olhar sobre o homem da caatinga, as fotos revelam a vida dos vaqueiros desta peculiar zona rural da Bahia. “A criação do gado dentro do Raso deu tão certo que eles decidiram passar de bisavô para avô, de avô para pai, e de pai para filho. Depois de um tempo, virou tradição”, diz o fotógrafo.

Em busca de cenas originais, Rui Rezende se embrenhou na mata, participou de acampamentos improvisados na caatinga, e, literalmente, bebeu água de barreiro. A ideia era mostrar o cotidiano dos homens que desafiam a modernidade e a urbanidade, vivendo numa das geografias mais hostis do Brasil.

As fotos mostram o modo de vida, as crenças religiosas, as estratégias de sobrevivência sem água, até a solidão do vaqueiro sob o céu estrelado da caatinga.

Em muitos momentos, também camuflado de couro para se proteger das plantas que provocam urticárias, como a favela, o fotógrafo chegou o mais próximo possível da realidade.

“Para fotografar os vaqueiros, é preciso conhecer as pessoas, se familiarizar com elas. Ser mais um entre eles, se tornar invisível, para que eles se sintam à vontade. Só dessa maneira, se consegue fotos mais autênticas, mais reais, para mostrar a decência da lida dos vaqueiros nas entranhas do Raso da Catarina. Enquanto eles caçavam o gado, eu caçava as imagens”, explica o fotógrafo.


Acampamentos

Os acampamentos chegam a reunir dezenas de vaqueiros de uma só vez no meio da mata. “Eles pegam o animal por que existe uma necessidade. O animal que é solto, depois de muito tempo se torna quase silvestre, e precisa ser resgatado”, comenta o fotógrafo. À noite, nos acampamentos, as conversas são regadas com carne assada, farinha e rapadura ao redor da fogueira.

Esta não é a primeira vez que o fotógrafo, especialista em imagem aérea e de natureza, se debruça sobre o campo e seus moradores. Nos livros anteriores, Rezende mostrou a beleza da Chapada Diamantina, os encantos da península de Tinharé e a vasta fronteira agrícola do Oeste da Bahia.

O novo trabalho marca um momento especial na sua carreira. A obra foi integralmente realizada depois do acidente aéreo que sofreu em 2014. Na época, quando sobrevoava uma plantação de algodão, o avião emque estava caiu. Ele e a piloto sobreviveram.

“É o primeiro livro feito nessa nova vida. Mostra a força do nosso criador, no momento em que nos proporciona a fantástica capacidade de superação e restauração”, acrescenta o fotógrafo, para quem os vaqueiros são super-heróis de verdade.

Profissão regulamentada em 2013 
Apesar de antiga, a profissão de vaqueiro só foi regulamentada no Brasil em 2013, quando uma lei federal passou a reconhecer como vaqueiro o profissional que trata, maneja ou conduz espécies animais. Além de guiar a boiada, o vaqueiro pode realizar tratos culturais nas plantações, alimentar animais, fazer ordenhas, treinar e preparar animais para eventos culturais.

Só depois desta data, o nome da profissão pôde passar a constar oficialmente nas carteiras de trabalho, e os profissionais passaram a ter acesso aos benefícios da Previdência Social. Na Bahia, não há dados exatos sobre quantas pessoas exercem a profissão de vaqueiro, mas estima-se que existam pelo menos 180 núcleos espalhados pelo estado.

A atividade de vaqueiro é uma das mais antigas que se tem notícia. Há relatos que existe desde que o homem começou a desbravar o continente, levando o gado do litoral para o sertão, ainda nos tempos coloniais.

Responsável por cuidar do rebanho em plena caatinga, a profissão sempre exigiu uma roupa especial para atravessar a mata espinhosa e proteger o corpo.

Assim, ainda nos tempos de hoje, alguns vaqueiros chegam a usar vários acessórios de couro como perneiras, luvas e gibão, uma espécie de casaco. Em 2011, a Bahia foi o primeiro estado brasileiro a reconhecer o ofício do vaqueiro como patrimônio imaterial.

Livro registra o modo de agir e falar do vaqueiro 
O livro também registra o modo próprio de agir e falar dos vaqueiros do Raso da Catarina. A linguagem particular ganhou forma de prosa e verso, pelo texto do poeta, escritor e professor da Universidade Federal do Oeste, Cícero Félix. Fotos e textos se complementam.

É assim que se perpetuam as lendas que falam sobre o nome de batismo do Raso. “Se é verdade ou não, que se pronuncie. Tem uma Catarina, viúva de um cangaceiro que caiu na mira da volante. Tempo depois, se escondendo da mata branca pra fugir da bala certeira, ela topou com uma pancada de vento traiçoeiro e virou areia encadeante, subindo numa tromba de redemoinho. Assim, seu brilho foi espaiado por todo o Raso”, relatam os vaqueiros.

As lendas sobre o nome da região envolvem outras duas histórias. Uma criada pelos índios pankararé, e outra que fala sobre uma nuvem devastadora de gafanhotos que teria levado embora uma certa Catarina.

Para o escritor que registrou as conversas, a linguagem retrata a personalidade nordestina destes homens que tem uma relação profunda com o espaço onde vivem.

“A conversa é um canto animado de risos. Não há tristeza nem dor nas cicatrizes dos rostos de olhos miúdos e vivos desses vaqueiros. Há algo que os move, vai além da compreensão objetiva da razão. Talvez vivam em outro século próprio, só deles, dos guerreiros, numa caatinga que não demuda, senão pelas mãos do próprio homem”, afirma Félix.


Cercado por cânions, Raso da Catarina interliga vários municípios

O Raso da Catarina ocupa uma área de mais de 38 mil quilômetros quadrados, interligando vários municípios. Cercado por cânions, o espaço cria uma paisagem profunda. Mas a área é chamada de raso por possuir um relevo plano com vegetação rasteira.

Com temperaturas tão altas, a água evapora com facilidade, e só há um rio permanente, o Vaza-Barris, onde fica o  açude do Cocorobó.

As características climáticas extremas  da região não atraem muitos moradores. Desértica, há alguns anos, parte do Raso passou a abrigar reservas biológicas e parques ecológicos, servindo de lar para diversas espécies como as araras-azuis-de-lear.

Vegetação
A vegetação é marcada por espécies como o xique-xique, a macambira e a imburana. Detalhes da flora que não passaram despercebidos pela lente do fotógrafo. Uma das plantas mais comuns é o gravatá, que armazena água, mata a sede do sertanejo, e é uma velha aliada dos vaqueiros.

“A água é aquele chá bem friiin, né. É de chuva de tempo passado que fica ali guardada com folhas, dando a sustança da vida catingueira, de molho, com escondido sabor escuro. Com três gravatás você dá de beber a um cavalo”, garante o vaqueiro Raimundo Santana.